Boa parte das empresas que existem hoje começou como algo diferente de uma empresa de produtos ou de software para Internet. Talvez sua empresa tenha começado como uma grande loja de varejo, ou uma companhia área, ou uma empresa de serviços financeiros.
Embora seja verdade que todas estas empresas criam montes de software para realizar seus negócios, tipicamente elas não são organizadas para produzir o tipo de software do qual elas dependem para seus negócios de hoje.
Por exemplo, varejistas desenvolvem (ou compram) software para coordenar e gerenciar estoque, distribuição e sistemas de ponto de vendas. Companhias áreas escrevem software para gerenciar a logística envolvida em vôos, tripulações, reservas, pagamentos e manutenção de aeronaves. Empresas de serviços financeiros escrevem software para gerenciar os ativos e investimentos de seus clientes.
Mas nos últimos 10 anos, virtualmente todas estas empresas, bem como as de dezenas de outras indústrias, perceberam que precisavam utilizar a Internet para se envolver diretamente com seus clientes online.
Hoje, a maior parte dos varejistas vende suas mercadorias diretamente para seus consumidores online. A maior parte dos usuários reserva e compra suas passagens aéreas online, diretamente pelo site da companhia aérea, ou do site de um revendedor. E quase todas as empresas de serviços financeiros deixam seus clientes gerenciar seus ativos e negociar diretamente através de sites financeiros em tempo real.
Não preciso dizer para ninguém que lê este artigo o quão fundamental mente a Internet transformou os negócios.
Entretanto, muitas destas empresas tentam tratar este novo software que interage com o cliente como se fosse um software que interage com colaboradores internos da empresa, e o resultado é que muitas destas empresas apresentam experiências terríveis para seus clientes no mundo online, e, pior, elas não têm a organização, as pessoas ou processos preparados para melhorar isto.
Observo isso freqüentemente, especialmente quando estou fora do Vale do Silício, e, quando estou na Europa, Ásia ou Austrália, já percebi que esta é a regra. Chego numa empresa e descubro que ela não tem Gerentes de Produto ou designers de experiência do usuário – geralmente elas têm gerentes de projeto, e talvez alguma espécie de ‘analista de negócios’, e, é claro, desenvolvedores de TI, e geralmente todos eles se reportam para o CIO. Algumas vezes encontrei até mesmo empresas que estavam terceirizando seu “site” para agências externas fazerem o design e manterem.
Para ser mais claro, quando digo “organização orientada a produtos”, estou me referindo a uma organização de software que cria produtos para clientes-finais (milhares ou milhões), e não apenas para funcionários ou parceiros.
Por que o software-produto é tão diferente do software de TI? Por várias razões: você paga seus funcionários para trabalharem na sua empresa e utilizarem o software que você mandar; por outro lado, no software-produto, cada um toma sua própria decisão de compra – se não quiserem, não usam. Além disso, para seus próprios funcionários você pode oferecer manuais, treinamentos, serviços profissionais; já para o software-produto, se os usuários não conseguem descobrir como usar seu software, eles estarão apenas a um click de seu concorrente. Para software de TI, você mede a escala e a quantidade de usuários simultâneos em centenas; em contraste, para software-produto, é em centenas de milhares, ou até milhões de usuários. Para software de TI, se há um problema com o software, eles são seus funcionários e são obrigados a lidar com isso; para um software como produto, deixar o software fora do ar prejudica a receita e imediatamente atrai a atenção do CEO e da imprensa.
A verdade é que a maior parte dos produtos de software têm necessidades muito maiores em relação a definições, design, implementação, testes, deployment e suporte do que para a maior parte dos softwares de TI. Também é verdade que os salários usualmente refletem isso. Encontrar pessoas com a experiência necessária para o desenvolvimento de produtos de software é muito mais difícil do que pessoas com experiência em TI.
Para ajudar estas organizações de TI, neste artigo quero enfatizar as mudanças típicas que são necessárias para evoluir uma organização de TI para uma organização efetiva em softwares-produtos.
- Primeiro, trace uma linha clara entre software interno e software voltado para os clientes. As demandas são diferentes, as capacidades necessárias são diferentes, e você descobrirá que precisa de equipes, processos e recursos distintos. Não me entenda errado – ambos são importantes, mas são muito diferentes e a maior parte de seu foco deve ser em software-produto. Se você pode terceirizar ou comprar software de prateleira para seus sistemas internos, você deve fazê-lo, para poder alocar as melhores pessoas, seu tempo e seus esforços no software voltado para clientes.
- Você precisará de Gerentes de Produto que representem as necessidades de seus usuários-alvo e que liderem os esforços de criação do produto. Você provavelmente já tem gerentes de projeto, mas, se não tiver, você precisará deles também. Só não cometa o erro de tentar contratar a mesma pessoa para fazer os dois papéis.
- Você precisará de designers de experiência do usuário, porque fazer software que não precise de um guia passo-a-passo, ou de um treinamento, não é fácil.
- Você precisará contratar engenheiros e desenvolvedores web que entendam as demandas de software de alta disponibilidade e larga escala, e como isto difere do “software corporativo”. Embora você seja uma “corporação”, este termo se refere à sua organização de TI, e não à sua organização de produtos, em que você está tentando criar algo muito diferente e muito mais difícil.
- Você precisará de engenheiros de QA, porque precisará garantir que seu software rode bem nos mais diversos ambientes de usuário, sob carga, e os momentos fora do ar têm impacto direto em sua receita e são bem piores do que se você diminuir o ritmo de seus próprios funcionários.
- Você precisará de uma equipe de operações que mantenha seu site no ar 24x7x365, pois é isso é difícil e requer conhecimentos e processos especiais.
- Você provavelmente precisará revisar seus processos de desenvolvimento de software desde o planejamento até o lançamento, uma vez que as necessidades do software como produto são bem diferentes das do software corporativo.
- Você precisará de uma estrutura de marketing online. Trazer as pessoas para o seu site não é fácil no mundo dos mecanismos de busca de hoje, e esta é uma competência cuja necessidade ainda não foi percebida por muitas organizações de TI.
- Você precisará repriorizar seus esforços em torno do fato de que esta experiência focada nos clientes que permite com que os usuários se envolvam diretamente para comprar e usar os produtos ou serviços de sua empresa não é algo superficial – precisa ser uma competência primária de sua empresa. Não é algo a se passar a agências externas.
- Determine suas principais métricas de negócio, instrumentalize seu site e estude religiosamente os relatórios diários e então dedique-se a melhorar estas métricas-chave.
Se você ainda não sabe o que são estes papéis e processos referenciados aqui, você pode achar mais lendo outros artigos em www.svpg.com/articles.
Uma nota de atenção: há uma indústria grande, bem estabelecida e lucrativa de organizações que auxiliam organizações de TI (especialmente empresas de serviços e consultorias). Infelizmente, a maior parte destas empresas também não entende as diferenças do software como produto, o que apenas perpetua este problema. Sejamos justos, a maior parte do software existente hoje ainda é customizado, de TI, e estas firmas podem ajudar muito na criação deste tipo de software. Mas software-produto é um bicho totalmente diferente, então, mantenha isso em mente ao falar com estas empresas.
Para muitas empresas, estabelecer uma competência de software como produto é a coisa mais importante a se fazer para garantir sua sobrevivência, ainda que, surpreendentemente, algumas ainda nem perceberam que tem um problema. Elas assumem que “software é software”, e que as mesmas pessoas que cuidaram de sua implementação de SAP não devem ter problemas em colocar algo funcional na web. Se você está numa destas empresas, esperamos que você consiga encorajar sua gerencia a considerar os dez passos acima e ver se você consegue fazer com que as coisas melhorem.